terça-feira, 1 de novembro de 2005

Winston Churchill!




Eis aí um excelente texto para reflexão (colaboração do amigo Cutarelli).
O artigo tem mais de 25 anos.
Foi escrito no extinto Jornal da Bahia, em 1979. Mas parece que foi redigido hoje.
O autor é José Alberto Gueiros.
JORNAL DA BAHIA - Sábado, 23/09/79
O MEDO CAUSADO PELA INTELIGÊNCIA
Quando Winston Churchill, ainda jovem, acabou de pronunciar seu discurso de estréia na Câmara dos Comuns, foi perguntar a um velho parlamentar, amigo de seu pai, o que tinha achado do seu primeiro desempenho naquela assembléia de vedetes políticas.
O velho pôs a mão no ombro de Churchill e disse, em tom paternal:
"Meu jovem, você cometeu um grande erro.
Foi muito brilhante neste seu primeiro discurso na Casa.
Isso é imperdoável.
Devia ter começado um pouco mais na sombra.
Devia ter gaguejado um pouco.
Com a inteligência que demonstrou hoje, deve ter conquistado, no mínimo uns trinta inimigos."
O talento assusta!
E ali estava uma das melhores lições de abismo que um velho sábio pode dar ao pupilo que se inicia numa carreira difícil.
A maior parte das pessoas encasteladas em posições políticas é medíocre e tem um indisfarçável medo da inteligência.
Isso na Inglaterra.
Imaginem aqui no Brasil.
Não é demais lembrar a famosa trova de Ruy Barbosa:
"Há tantos burros mandando em homens de inteligência
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma Ciência."
Temos de admitir que, de um modo geral, os medíocres são mais obstinados na conquista de posições.
Sabem ocupar os espaços vazios deixados pelos talentosos displicentes que não revelam o apetite do poder.
Mas é preciso considerar que esses medíocres ladinos, oportunistas e ambiciosos, têm o hábito de salvaguardar suas posições conquistadas com verdadeiras muralhas de granito por onde talentosos não conseguem passar.
Em todas as áreas encontramos dessas fortalezas estabelecidas, as panelinhas do arrivismo, inexpugnáveis às legiões dos lúcidos.
Dentro desse raciocínio, que poderia ser uma extensão do Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdan, somos forçados a admitir que uma pessoa precisa se fingir de burra se quiser vencer na vida.
É pecado fazer sombra a alguém até numa conversa social.
Assim como um grupo de senhoras burguesas bem casadas boicota automaticamente a entrada de uma jovem mulher bonita no seu círculo de convivência, por medo de perder seus maridos, também os encastelados medíocres se fecham como ostras à simples aparição de um talentoso jovem que os possa ameaçar.
Eles conhecem bem suas limitações, sabem como lhes custa desempenhar tarefas que os mais dotados realizam com uma perna nas costas, enfim, na medida em que admiram a facilidade com que os mais lúcidos resolvem problemas, os medíocres os repudiam para se defender.
É um paradoxo angustiante.
Infelizmente temos de viver segundo essas regras absurdas que transformam a inteligência numa espécie de desvantagem perante a vida.
Como é sábio o velho conselho de Nelson Rodrigues:
"Finge-te de idiota e terás o céu e na terra!".
O problema é que os inteligentes gostam de brilhar, que Deus os proteja!!!

9 comentários:

helena disse...

Excelente texto delegado, fruto de um homem muito inteligente. Parabéns! Mas o que disseste é real, infelizmente, e nunca esteve tão em voga! É muito triste tudo isto, é um desestímulo e tanto!

Augusto disse...

Delegado parabéns, esse foi o seu melhor artigo nesses meses todos que venho nessa respeitável tribuna eletrônica.Realmente, até em reuniões sociais quem se destaca pela cultura e espirituosidade ganha vários inimigos. Para complementar o que expôs, diz Aristóteles: "Sentimos inveja dos que nos são iguais por nascença, parentesco, idade, disposição, reputação, bens em geral(...).Ninguém tem inveja dos que viveram há milhares de anos, dos que hão de nascer ou dos que morreram(...).Nem daqueles que, aos nossos olhos ou aos dos outros, nos são muito inferiores ou muito superiores(...).Invejamos aqueles que ambicionam os mesmos bens que nós(...).Invejamos os que facilmente triunfam, quando nós temos dificuldade em triunfar ou fracassamos(...).Invejamos nossos pares que conquistaram êxitos e riquezas porque, se não obtemos os bens que eles têm, a culpa é nossa(...).Também invejamos aqueles que possuem ou possuíram as vantagens que deviam caber-nos ou que um dia obtivemos; daí a inveja que os velhos sentem dos novos.Sentem inveja aqueles que tiveram de fazer grandes esforços para conseguir o que outros conseguiram por pouco custo.Todos aqueles que conseguiram um objetivo são invejados por aqueles que não alcançaram ou falharam." Aristóteles,Arte retórica e poética.Editora Tecnoprint.Desse texto pode-se concluir que a humanidade não mudou nada em todos esses anos.E bota anos nisso!

Elaine disse...

Como eu já vivenciei o chamado "fazer sombra" na pele, não por ser inteligente, mas sim porque era dedicada, sabia trabalhar, não tinha tempo ruim pra mim, sabia conquistar minha equipe, não tinha nariz empinado e não desfazia do povo mais humilde que me prestava serviço. E isso incomodava aos meus superiores. Passei com inteligência por três deles, mas no terceiro tive que pedir para ser mandada embora, senão eu iria quebrar ele todo. A diferença deles para mim era a seguinte: Eu trabalhava, e inclusive, fazia o serviço deles ganhando dois salários mínimos(no valor de hoje) e eles 7 vezes mais do que eu além dos benefícios. Eu posso suportar assim como muitos brasileiros ganhar pouco e trabalhar muito, mas jamais irei aceitar ser desrespeitada. E antes que perdesse a razão, preferi sair fora.

Não é só uma questão de demosntrar cultura e inteligência, é também a questão das pessoas que não tem medo de trabalhar. Vamos fazer, vamos conseguir, vamos achar uma saída,vamos desenvolver novas idéias e etc...Acho que não é só a inteligência, cultura e beleza(como foi citado no texto) que incomodam, e sim, a outra pessoa que se acomoda num ponto de sua vida achando que está tudo muito bom e sempre algo novo com muita facilidade, enquanto outros querem ir mais além estudando e trabalhando muito.
Ótimo texto delegado! Desculpe o comentário, mas lembrei de mim um pouco nesse texto.
Sds...Elaine

forny disse...

Muito apropriado. Vamos ver quanto tempo vai durar sem alguém para criticá-lo.
abs,

Alice disse...

Parabéns,na medida !!!

Anônimo disse...

Prezado colega Rayol.

Parabéns.Tenho esperança que no ano que vem o burro maior e seu séquito de burrinhos vão se embora!

Bertin

Ricardo Rayol disse...

Texto perfeito. Nãosei como é na vida pública, mas em empresas privadas os ratos sempre conseguem subir mais rápido.

Nemerson Lavoura disse...

Brilhante, simplesmente brilhante.

Ivan disse...

Perfeito, Dr. Rayol.
É assim mesmo. Quer conhecer mais um caso concreto (sem falsa modéstia)? Navegue em http://www.athie.net.
Parabéns.
Antonio Ivan Athié